Sou branquinha de olho claro, na minha
árvore genealógica, só europeus, meus pais são filhos de imigrantes europeus,
trabalharam bastante. Nasci no início
da década de 80 e por uma longa história que dava pra escrever um livro, até os
meus 18 ou 19 anos estava longe de fazer parte da classe média, inclusive já
trabalhei como faxineira. Estudei toda minha vida em escolas públicas, boas ou
não. Fiz meu primeiro curso universitário também em uma Universidade Pública
uma pós-graduação, e hoje continua usufruindo desde bem público na minha
segunda graduação. Não me lembro de nenhum momento ter sido discriminada na
escola por ser de classe baixa, me lembro de sim de ter sido chamada em vários
momentos para representar a escola: "afinal, olha que fofinha ela é
rosadinha e esses olhos claros, lindos". Todas as minhas entrevistas de
trabalho até hoje foram bem sucedidas, perdi um emprego uma vez, por ter cara
de criança mais isso não foi de tanto ofensivo. E por que eu estou contanto
tudo isso só para responder se sou a favor de cotas ou não. Estou contando tudo
isso para dizer que nessa trajetória, sempre tive um negro ao meu lado o Luis,
negão, que aos dois anos de idade foi posto de lado pelo simples fato, ele era
negro. Luis fez parte da minha infância e ao contrario de mim que era “
bonitinha, rosadinha e de olhos claros”, Luis era deixado de lado, muitas vezes ele nem
era visto, ignorado mesmo, como muitos. Uma vez chamaram a policia, porque
tinha um negro com uma menina branquinha de olhos claros, Luis chorou, eu
chorei junto com ele. Um dia alguém falou: “esse menino é bom pena que é negro,
nem vai longe” – Luis não ouviu. Mais eu ouvi e me revoltei, por que ele não
iria longe se era uma das pessoas mais brilhantes que já conheci? Luis cresceu,
eu cresci, Luis foi embora tinha um tio que era médico e resolveu financiar
seus estudos, Luis entrou na Universidade Publica, fez mestrado, doutorado, e
hoje mora na Europa, aquele lugar de onde os meus avós vieram, Luis ganha bem,
tem casas, tem uma vida feliz e ele é respeitado, um grande profissional e ai
alguém vai dizer, viu Luis não precisou de cotas para ser o que é, assim como
vem falando do Ministro Joaquim Barbosa e é nesse momento que vem a minha indignação,
quantos Joaquim e Luis existem no Brasil, considerando que 50% da população brasileira
são de Pretos e Pardos? E a nossa história parece que as pessoas esquecem, bem
elas esquecem. Até 1888 esses negros que ajudaram na formação social brasileira
eram mantidos como propriedade, você consegue se imaginar nessa situação sendo
propriedade de alguém? E sabe quantos anos faz que ocorreu a dita libertação 124 anos, e você acha que
isso é tempo para reparar todos os erros que foram feitos. Leia nossos livros
de história e digam onde estão os negros neles? Dai século XXI um negro se torna presidente do
Supremo e vocês acham que nossos problemas estão todos resolvidos. Sim lindo
mérito e horas para o senhor Joaquim, mérito e horas para o Luis também, que
esta indo conhecer Bali. Mais e dai e os anônimos que são vilipendiados
incompreendidos e descartados? Vamos continuar dizendo, “não cota é mais um
processo de discriminação”, não é não é uma medida que tem que ser feita nesse
país que foi muito mal construído sociamente, deixando de lado que realmente
usou seu suor e sangue para fazê-lo uma nação. Hoje mesmo discutíamos o papel do
senhor DEZIDÉRIO FELIPPE DE OLIVEIRA (“Após 1888, com a libertação dos escravos,
vários ex-escravos saíram de suas regiões de origem e migraram para Maracaju, principalmente
ex-escravos vindos de Uberaba, como foi o caso de Dezidério Felippe de Oliveira.”/
Carlos Alexandre 2010, P.174), quem é de Dourados, provavelmente nunca ouviu
falar desse senhor, mais ele ajudou no processo de formação da minha cidade e
foi deixado de lado nos livros de história. E assim fizemos, com Luis e Joaquim,
apenas enaltecemos o que a nossa cultura eurocêntrica acha importante e vamos
formando um país de hipócritas que são incapazes de conhecer quem foram às
personagens de sua própria história de formação. È mais fácil contestar o
regime de cotas, a revista Veja o faz, tem uma fonte a quem recorrer, mais e
ai, vamos continuar aumentando o nosso PIB as custa dessa mão de obra e continuar
sendo apontado como o país das desigualdades? Precisamos de medidas
compensatórias sim, precisamos que todos, diferentes, iguais, roxos de bolinhas
amarelinhas, tenham a mesma chance e por enquanto esse país não proporciona as
mesmas chances para todos, estamos muito aquém disso. E as cotas são sim e vão
continuar sendo um caminho para isso, tornar o Brasil um país para todos,
porque até hoje isso não ocorreu. Espero que venham grande profissionais, que
nossa justiça e saúde sejam mais humanas. Enfim sou a favor das cotas, hoje
amanhã e sempre e serei sua defensora, mesmo sendo branquinha eu tenho sim
muito haver com isso. Espero ter respondido, e espero que vocês tirem algo de
positivo e não venham somente me perguntar quem é o Luis!
Um comentário:
Maravilhoso o seu texto, Tânia!
Exemplo de humildade, você consegue demonstrar assim como Jesus fazia, através de uma estória (parábola), o sentido maior que podemos resgatar destas vivências que nos marcam a alma...
Obrigada pela oportunidade de compartilhar estas vivências com você!
Abraços, Klaudia Bitencourt.
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